domingo, 25 de novembro de 2007

Primeiro raio de sol, com cheiro a petróleo

Eram não sei que horas do principio de uma noite passada quando recomeçaram a furar. A rocha atravessada pelas poderosas e impiedosas ferramentas metálicas chega à superficie, transportada pela lama injectada no furo, já cansada e transformada numa soma milimétrica do todo que foi outrora. A profundidade, a cerca de 1300 metros, coincide com a zona decretada como produtiva em hidrocarbonetos e, como tal, é também produtiva em grandes expectativas. Por isso, há conveniência em conduzir uma operacão de furação um pouco diferente, com recuperacão de amostra directamente do fundo do furo: o coring. Isto implica basicamente o posicionamento de um grande tubo de aluminio (ou PVC) no interior de uma outra tubagem de liga metálica, imediatamente comunicante com a ferramenta cortante (o bit). À medida que o bit se desloca em profundidade, os cerca de 18 metros de tubo interior são inundados pela amostra recém cortada, onde esta permanece, inalterada e imóvel, até ser transportada e exposta na superficie. Depois da primeira tentativa fracassada no dia anterior, o segundo coring é bem sucedido e apresenta-se à superficie já pela madrugada adentro. Obtém-se a totalidade de recuperação de amostra (os tais 18m) e o odor oleoso não engana; a rocha, mortalmente trespassada, ainda sangra um pouco de petróleo pela extremidade do tubo. Os primeiros raios de sol chegam finalmente e a rocha, qual esponja embebida em óleo, torna-se ainda mais pesada de brilho, quase de metal precioso. E a luz nos olhos das pessoas também é diferente. Por isso, baixo os olhos em pesar e contemplação.

[Embora já tenha assistido a esta operação no passado, ocorrem-me sempre nestes momentos algumas interrogações retóricas acerca do como este fluido sujo e gorduroso possa ser a vitalidade da civilização e se encontrar logo aqui, debaixo deste triste e solitário deserto, quase esquecido. Vivemos com esta energia fóssil numa simbiose na qual somos nós os parasitas e, no entanto, é amplamente sabido que na natureza, poucos são os parasitas que sobrevivem à morte do hospedeiro. As consequências do anunciado esgotamento desta energia já se estão a sentir mas continua a ser preferido o debate de ideias à implementação de acções. Ocorre-me também que o senhor Bush afinal não deve ser assim tão parvo como o pintam, apesar dos muitos comentários sem nexo (e estúpidos vá) que produz. Ao fim ao cabo, anda mais de meio mundo a aumentar a extracção do petróleo, já que o barril nunca foi vendido a tão alto preço, enquanto que os amigos dos USA fazem uns quantos furos que asseguram o seu consumo interno. O resto da sua reserva está por explorar. E o futuro é já amanhã. Talvez ainda seja possivel amplificar a produção das ditas energias alternativas. Ou esperar mais tempo para ver o que realmente acontece. Ou produzir um motor movido a água salgada (...ou a bananas). Ou... sei lá. Mas sei que o petróleo vai acabar um dia e que o relógio não pára.]

Apesar de possuir ideias algo concretas, mas raramente estáticas, acerca do petróleo enquanto alimento de uma civilização dependente e esfomeada por energia, não consigo deixar de me apoderar deste brilho que escorre do calcário no interior do tubo. O brilho forte e o odor inebriante afinal de contas são o poder e o sucesso. Apesar de se ter atingido um pequeno reservatório, olho à minha volta e há um deserto quieto a acordar, que se estende até onde a minha vista alcança, em todas as direcções, e muito mais além. Devo ter sorrido de ironia. O que está debaixo dele é que conta. Tudo o resto não deve interessar para nada. Tudo está bem e até me lembro de uma música do SG, de dias felizes e vou-me embora com um brilhosinho nos olhos. Passa das 9h e a noite foi longa e trabalhosa. Vou dormir. Já devo é de estar cansado.




O core à superficie, no momento em que foi aberto.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

WOC

É a abreviatura usada para “Wait On Cement”. Consiste exactamente no periodo de espera que o cimento bombeado no poço necessita para endurecer, requisito indispensável à passagem para uma nova etapa de furação. Para mim significa “tempo morto com ausência de qualquer tipo de produtividade”. Por outras palavras, não faço rigorosamente nada, o que poderia ser bom, mas na verdade até se torna aborrecido, uma vez que tenho que estar à mesma na unidade de trabalho, fazendo o mesmo horário das 18h às 6h. É nesta fase em que me encontro. O meu humor oscila entre o contentamento por não ter trabalho de laboratório e o transtorno por ter tempo livre sem uma ocupação interessante onde o usar. Quando o minesweeper deixa de ser um fiel amigo e se recusa a colaborar no processo de superar o meu anterior record, sei que estou em dificuldades. A mente comeca a vaguear no espaço obscuro e encontra rapidamente o caminho de casa e de todas as coisas boas (e más tambem) que por lá acontecem. Ainda nem cheguei a meio da campanha e as saudades já se sentem. Posso sempre alegrar-me com o pensamento de que amanhã é outro dia e será, por certo, bem mais trabalhoso que o de hoje, com bocadinhos de rocha dilacerada e esventrada do fundo do furo, para analisar e identificar. Ainda nos arriscamos a encontrar petróleo ou qualquer coisa parecida... Até foi para isso que vim e acaba por ser assim que o tempo passa mais depressa, a trabalhar. Vida de geólogo; é como a vida de marinheiro mas no deserto. No entanto, desde que cheguei, peixe ainda não foi opção disponivel na ementa (malta da cozinha: mais atenção). Neste caso, o conceito de vida de marinheiro não será extensivel ao peixinho.
Enfim é muito bom ter umas pausas pelo meio do trabalho, desde que não sejam exageradamente demoradas. A instalação de um clima de apatia e ócio não é indicada à vida no deserto, por si só, já tão despido de actividade.

Vou ali fazer qualquer coisa.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Viagens da minha vida

A viagem até nem foi má. Só houve alguns percalços que a tornou ainda pior. A constipação não ajudou a minha disposicão e terá, pelo contrário, incendiado a minha irritação com os sucessivos atrasos nos voos. Estes, foram provavelmente os responsáveis por ter chegado a Tripoli sem a minha mala. Salve-se a minha capacidade de antever catástrofes e viajar com alguma roupa na minha inseparável mochila. Fico mais tempo no aeroporto com a dificil missão de tratar dos formulários necessários ao resgate dos meus haveres. O obstáculo da comunicacão é facilmente ultrapassado quando requisito o motorista encarregue do meu transporte para tratar do assunto, ficando apenas a faltar o despacho da fila de pessoas que se encontrava pela minha frente, com um problema semelhante ao meu. Terminados estes deliciosos momentos de tertulia, com total ausência de regozijo pessoal, lá nos tivemos que pôr a caminho para a deserta base da empresa no centro de Tripoli, de onde trouxe emprestados alguns bens essenciais à minha sobrevivência e aguardei cerca de uma hora até à chegada do meu outro transporte para o poço onde fui destacado. Choveu bastante nesse dia e algumas estradas encontram-se alagadas, o que me faz temer pela minha segurança, tendo em conta as velocidades praticadas por estes condutores (como chamar-lhes…?) assassinos. Este último trajecto não tem muita historia, tirando talvez o pequeno-almoco, à base da sandocha de figado de borrego, bem carregada de picante. Bem bom. Parece-me que aqui isto é uma espécie da bifana que se come na roulote em Portugal. Chego ao meu destino às 11h, exactamente 24h depois de ter saído de casa, onde sou recebido por caras conhecidas que me dão algum alento para iniciar o trabalho às 18h.

Agora faço o turno da noite e até nem desgosto. Parece-me bastante mais tranquilo que o dia e penso que só me posso queixar do frio que se faz sentir. A temperatura chega a ser menor que 10°C e até a alma se sente fria. Ou os ossos, já não sei. Contudo, o processo das continuas noitadas em Lisboa finalmente tem resultados práticos visto que a adaptacão ao horário nocturno não foi dificil. Só custa mesmo dormir durante o dia quando sou confrontado com situações de falatório perto do meu quarto. Entretanto, a minha mala já me foi enviada, o que me trouxe algum conforto, apesar de ter acessos de pensamentos menos bons para com o senhor sorridente da Alitália em Portugal, sempre que olho para ela. Sou responsável pelos meus actos e pelas minhas palavras, por isso, tentarei, com muito afinco, não ser obrigado a responder por ambos, da próxima vez que o encontrar.

O nascer do sol já não significa o começo do meu dia de trabalho. Saúda antes o dever cumprido e o descanso. E, embora não tão quente como no passado, que sol este, o do deserto…

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Havia este de me fazer rir...

Depois de um mês sem publicar, inicia-se um Novembro prometedor a muitos níveis. A viagem está próxima e o vento começa a soprar numa direcção, seja ela a certa ou a errada, agora não estou preocupado com isso. Muitas vezes a viagem é mais importante que o destino mas no meu caso... só espero que a viagem não seja muito longa. Vou ver o que o vento me traz.

Hoje trouxe-me este senhor incorrigível, a quem faço questão de dar voz aqui no meu espaço. Porque me apeteceu. Para ser diferente de tudo o que já tenho aqui publicado. E porque o rapaz até é engraçado (mais do que eu ainda). E porque todos precisamos de nos rir de vez em quando...

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Dia dos mortos (...e dos meio-mortos/vivos)

Por muito interessante que tenha sido Outubro, ao que parece, não o foi o suficiente para que a minha atenção se tenha dirigido para este espaço. Ou então não teve mesmo interesse.
Começa então o Novembro do meu contentamento. Vem aí o trabalho. Dia 5 voo para a Líbia uma vez mais. Desta vez reservaram-me mais uma surpresa: vou a Milão, depois a Roma, onde finalmente sou remetido ao meu destino (quase) final: Tripoli (onde espero chegar com as bagagens todas). O plano que me fez ficar em casa um mês a mais que o normal deve ter corrido mal uma vez que já não vou para offshore. A plataforma ainda estava a ser rebocada para o largo da Líbia no princípio de Outubro e, ao que consta, ainda não está a laborar. Ao menos estive dois meses em casa. Para já contam-me que vou para o meio do deserto outra vez, a cerca de 50km do poço onde já tinha estado da última vez. Quando lá chegar saberei com certeza.
Espero voltar a tempo do natal e da passagem de ano, a menos que tenha que ficar lá mais tempo que o habitual, o que seria naturalmente chato e, por que não, aborrecido. O natal dos hospitais só deve passar mesmo na televisão portuguesa. O que é de mim se não estou cá…

Adicionei recentemente neste espaço um novo elemento designado Outras Olhadelas, onde figura uma listagem de sítios na blogosfera pertencentes a amigos que visito regularmente. Como ainda estou assim um pouco verdinho nas lides deste mundo confesso que não tenho visitado muita coisa fora do círculo das amizades que, por acaso, tendem a pertencer a um outro mundo complexo e misterioso (o dos geólogos).

Espero ter net no deserto para partilhar uma história ou duas. Mais do que isso, espero ter uma história ou duas para partilhar… se tiver net, está claro.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Pavia, 16-20 de Setembro

E lá voei outra vez para Itália.
Pavia deu-me estadia para um curso anti-incêndio e sobrevivência em desastres offshore. O dito consistiu em formação teórico-prática a vazar extintores, usar aparelhos de respiração, primeiros socorros, embarque em salva-vidas e, a cereja em cima do bolo, simulação de acidente de helicóptero numa piscina. Foi interessante. Em especial a parte em que me afundaram dentro de um helicóptero em que fui convidado a entrar, sentar, pôr o cinto, colete salva-vidas e dispositivo de respiração. A ideia acho que era sair de lá vivo. Na ultima actividade de entretenimento viraram mesmo o helicoptero ao contrário dentro da piscina, em que fiquei de pernas para o ar preso pelo cinto e lá tive que sair mais uma vez pela janela do aparelho. Interessante, repito.
De resto, Pavia é uma pequena cidade universitária situada a cerca de 30km de Milão com muito bom ambiente. Possui um centro histórico riquíssimo e deveras interessante, em que se misturam as casas datadas desde o século XIV às modernas lojas e esplanadas.
Ficam algumas fotografias de Pavia (já que no curso era preciso autorização para fotografar).


Minerva.

Il Duomo. Infelizmente em obras de recuperação, assim como a igreja de S. Maria del Carmine (serão talvez os mais imponentes monumentos da cidade).


Passando o Duomo, entra-se na Piazza della Vittoria e Brolleto, rodeada de prédios do século XIV e enriquecida com uma série de esplanadas que lhe conferem bastante movimento pedonal.

Salone Mercato. Um edificio comercial recuperado e que possui uma cobertura que permite a passagem da luz. Situa-se igualmente muito perto do Duomo.

sábado, 15 de setembro de 2007

Gerês, 8-12 de Setembro

Pegamos no carro e fomos à aventura. O tempo ajudou e sentimos mais o calor que o frio. Sirvozelo, no concelho de Montalegre, foi a aldeia que nos acolheu, onde ficamos instalados numa casa de turismo rural. Foram cerca de 1500km percorridos de carro mas também muitos a pé, por trilhos de pedra e de silvas, por montes e vales, por regiões de granitos e migmatitos, por Portugal e Espanha.

Dia 8:
Lisboa – Sirvozelo – Montalegre – Sirvozelo


A passagem superior atrás da Fozzy é a entrada de casa em Sirvozelo.

Dia 9:
Sirvozelo (1) – Tourém (2) – Pitões das Junias (3) – Sirvozelo (1)





Mapa do percurso pedestre realizado.

Em Tourém, antes da caminhada. Sim, a espalhar protector solar.

Aqui estamos no outro Lado de Tourém (isto é, Espanha...).

Ortofotomapa do nosso "passeio" por Pitões da Junias. A tracejado está o nosso atalho.

O mosteiro de Santa Maria das Junias e alguns aspectos do caminho (entre eles, a cascata).
Ó mulher, ali...

Dia 10:
Sirvozelo (1) – Tourém (2) – Espanha (via Mugueines) – Parada (3) – Peneda (4) – Castro Laboreiro (5) – Espanha (via Lobios - Mugueines) – Tourém (2) – Sirvozelo (1)



Mais um percurso pedestre: Moinhos de Parada.

Cruzamos muitas linhas de água no nosso caminho.

E também nos cruzamos com alguma bicharada.

(...)

Perdidos? Infelizmente, o mato estava demasiado cerrado e tivemos que encontrar um caminho alternativo mais curto. Mas fomos recompensados ao almoçar numa cascata natural: o Poço da Gola.


Depois de um traçado de carro por uma estrada com a largura de uma faixa, onde apanhamos um incêndio florestal, aviões em voo picado para apagar o fogo, javalis, vacas e muitos outros cenários incomuns, chegamos à Peneda.

Bicharada na Peneda...
E mais bicharada, já à saída da Peneda...

Nas ruinas do castelo da Castro Laboreiro.

Depois da subida ao castelo, ficamos com uma bela vista.

Há sempre um ponto mais alto...

Dia 11:
Sirvozelo (1) – Vila do Gerês (2) – Portela do Homem (3) – Albufeira da Caniçada (4) – Terras de Bouro (5) – Sirvozelo (1)




Na cascata do rio Homem.


Tentativa de canoagem na Albufeira da Caniçada.

Dia 12:
Sirvozelo (1) – Covide (2) – Lisboa


O percurso que resolvemos aumentar: subimos ao Cabeço da Calcedónia (ou seja uma caminhada de 5 horas).


Pelo trilho da Calcedónia, em Covide.

No Cabeço da Calcedónia (a 3.5km de Covide).

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

A Libia e as suas gentes – opinião mal informada?

Libia, Marrocos, Mauritânia, Tunisia e Argelia partilham o sahara e estão unidos no que se designa o magreb, que se refere a região ocupada por estes paises do norte de africa. Porem, este contexto geografico mediterrâneo por vezes aproxima-os mais da europa que do resto do continente africano, apesar de, na verdade, eles apenas se encontarem unidos uns com os outros. Sabe-se que a Libia tem relacões comerciais com o velho continente desde tempos anteriores aos romanos que, aliás, chegaram a fundar por aqui cidades cujas ruinas se encontram ainda bem conservadas, como e o caso de Leptis Magna, situada junto ao mar apenas a umas dezenas de quilometros de Tripoli. Ja nesse tempo remoto se conhecia a existência do petra oleum, o oleo que jorra da rocha, então substituido em importância pelos escravos e o marfim. Esta ligação a Roma foi restabelecida séculos mais tarde, nos tempos do colonialismo italiano, a semelhanca dos outros vizinhos magreb com o extinto império francês.

No entanto, existem diferenças marcantes entre estes paises, que extrapolam a origem do antigo invasor europeu. Enquanto que a Libia possui um sub-solo rico em petróleo, Tunisia e Argelia extraem menores dividendos desde precioso liquido, assumindo no entanto um importante papel na extracção e canalização do gas natural que e comodamente queimado pelos fogoes de uma boa parte da europa. As grandes canalizaçoes passam por baixo do mediterrâneo em direcção a Espanha e a Itália, seguindo depois via terrestre para outros paises. A Mauritânia tem uma importante produção de minerio de ferro mas, tal como Marrocos, aparentemente não foi abençoada com as mais valias do combustivel fóssil. Dai este ultimo talvez ter apostado mais recentemente no turismo, uma outra fonte de rendimentos, que tambem ja despertou interesse na Tunisia e Argelia, onde o turista tem a possibilidade de viver a aventura do sahara em hoteis e excursões. A Libia encontra-se mais fechada ao ocidente. Os estrangeiros que por aqui se encontram são na sua esmagadora maioria pessoal técnico ou administrativo que representa empresas ou interesses forasteiros. São portanto o mal necessario à exportacão da riqueza nacional. Sem ilusões, aqui vive-se do petróleo. Dizem-me que nos ultimos anos se acentua uma tendência para a abertura ao ocidente...

Como
não sou um conhecedor profundo do magreb realmente não tenho grande margem para comentários mas, ainda assim, o tempo que ja passei na Libia da-me um certo crédito. Aparentemente, e ao contrário do que se passa nestes paises vizinhos, na Libia parece viver-se sem grandes preocupações. Não posso dizer que tenha visto gente realmente pobre e que as infra-estruturas não estejam a ser melhoradas. O clima geral é aliás de contentamento. No entanto, há algo que parece... errado. Consta que o actual governo quase que assume a satisfação das principais necessidades dos seus habitantes e, por isso, é-me dito que estes não precisam de trabalhar muito para ter uma vida razoável. Se calhar a atitude desplicente e diletante que vejo nas pessoas também vem daqui. A vida de muitos parece ser feita nos cafés à conversa. Todos tem televisão por satélite e bebem coca-cola mas parece tudo um pouco ilusório. Ė como se tentassem copiar alguns hábitos mas sem saberem exactamente o porque deles existirem e simplesmente tomam por certo o que já viram alguém fazer. Sem ser crítico quanto a sua fé, parece-me que também aqui há algo mal interpretado. Em Tripoli é possível acordar às quatro da manhã e pensar que raio se passa com esta gente que é convocada para rezar a estas horas por sacerdotes de megafone em riste no topo das mesquitas. Como este chamamento há outros quatro durante o dia. À partida isto até revela carácter e dedicação, que só pode merecer o meu imenso respeito. Ou pelo menos foi esse o meu primeiro pensamento. Depois comecei a associar isso ao facto de encontrar as pessoas meio ensonadas durante o dia e a dormitar depois de almoço. Outro facto interessante: durante o ramadão e proibido comer enquanto há luz do sol, o que acaba por se traduzir em completos excessos de sobrealimentação nocturna ou, indo mais longe, em periodos de engorda quando a ideia original me parece que fosse um pouco diferente. Há assim uma série de contradições e equivocos bem marcados nesta terra de abundãncia. Se calhar há a mais.

Muitas casas, antigas ou recentes, são envolvidas em altos muros que muitas vezes ficam em tijolo nu, dando-lhe um aspecto de bunker. A gasolina é queimada a cerca de 0.15 euro/L por isso o carro e usado para qualquer deslocacão e acima dos limites de velocidade. Não os legais mas os de segurança do veiculo. Isto deixa antever que a preocupação acerca da integridade do veiculo não representa um problema e explica o porquê de ser dificil encontrar um que não esteja todo amassado. A recolha de lixo não é regular. Há sacos de plástico a voar na cidade e no deserto onde, por vezes, representam o único movimento até onde o nosso olhar alcança. Na retina de um ocidental ficam retidos estes e outros detalhes que reflectem uma grande falta do nosso civismo e da nossa pro-actividade.

Claro que não me cabe a mim julgar esta passividade em relação ao presente e ao futuro e há que saber ver de onde foi tudo isto herdado. São séculos de história e tradições. Mas será que é mesmo assim? No passado o petróleo não tinha o valor que tem hoje e a vida de certeza que era bem mais dura. E quando o dito acabar...?



Vistas do terraço e do meu quarto em Tripoli.

Bem no centro de Tripoli.

Ate as mesquitas são bem guardadas.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Guarda-Rios

Depois de um acordar violento em que faltou tempo para um pequeno-almoço, lá me dirigi para a unidade de trabalho, que por hora se encontra um pouco parada, assim como tudo o resto. O bit encontra-se encravado a quase 2400 metros de profundidade desde ontem e talvez tenham que o abandonar por lá, o que tem maior importância quando se sabe que este é forrado a diamantes e que custa algum dinheiro.

Assim o dia até promete não ser muito trabalhoso mas quando saio da unidade por volta das 7h00 (depois de tratar do relatórios matinais e de me pôr ao corrente das operações nocturnas) deparo com um passarito a tentar lutar pela vida no tanque cheio dos despojos da lama oleosa. Imediatamente atiro-me lá para dentro para o salvar, com roupa e tudo (por acaso fui até à unidade buscar uma vassoura e um balde para o puxar para fora do tanque...). à semelhança dos salvamentos de aves afectadas pelos derrames de crude no mar, tentei lavá-lo um pouco e de seguida secá-lo. Aparentemente as penas das aves ficam afectadas pelo óleo e perdem as suas propriedades impermeabilizadoras, o que lhes confere a capacidade para voar e para manter a temperatura corporal, nomeadamente. Isto explica o facto de ele a) não voar e b) tremer por todo o lado. Com um conta gotas tentei dar-lhe água pelo bico mas quanto à comida vai ser mais dificil. Pensarei numa solução.

O mais interessante acaba por ser o facto de ter descoberto na internet que tenho um guarda-rios numa caixa de cartão, espécie que se alimenta de pequenos peixes e insectos, vivendo onde existem charcos ou pequenos ribeiros. Talvez tenha sido atraido pelo espelho de água do tanque de lama reflectido pela luz da madrugada e que se tenha perdido um pouco na sua migração. Embora eu saiba que tem poucas hipóteses de sobreviver vou mantê-lo comigo até que chegue a hora dele, para melhor ou para pior...

Classificação
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Coraciiformes
Familia: Alcedinidae
Género: Alcedo
Espécie: Alcedo atthis
Nome Comum
Guarda-Rios Comum


Foi neste estado em que o encontrei no tanque da lama.



Na fase seguinte a recolha.

No banho.

E por fim na caixa de cartão, onde se encontra agora.

sábado, 4 de agosto de 2007

Dia a dia

O dia amanheceu com o mesmo sol de ontem mas parece-me sempre diferente, dia após dia. O nascer do sol no deserto é bastante atraente e não é possivel ficar-lhe indiferente. Acho que nunca assisti a tanto nascer do sol como aqui. No entanto, e infelizmente, este acontecimento diário não tém nada de romântico e para mim significa o inicio de mais um dia de trabalho.

Estou há quase duas semanas na Libia, onde regressei ao mesmo rig que tinha deixado no final de Junho. As pessoas são praticamente as mesmas. Tal como eu, já foram a casa e voltaram. Parece que nem cheguei a deixar este lugar. O tempo aqui custa a passar e em casa parece que voa. Ainda para mais, estou há quase três dias sem nada que fazer, depois de um inicio trabalhoso. Os ritmos oscilam facilmente entre o muito e o pouco trabalho, sem que se possa prever com exactidão quando um se torna no outro. Simplesmente acontece.

Neste momento procede-se à lavagem de tudo o que está contaminado com a lama usada no furo, que é à base de diesel, para se recomeçar uma nova etapa de furação, com uma lama diferente, menos gordurosa (mais limpinha). Para mim foi uma experiência nova e tive que desenvolver outras metodologias de trabalho de forma a tratar convenientemente as amostras. Apesar do seu aspecto achocolatado esta lama não é nenhum doçinho. Além de emanar um forte cheiro a combustivel fica colada nas amostras (nas luvas, nas botas, na roupa…) e foi necessário o uso de detergente para a sua lavagem. Enfim, tudo isso agora terminou.


Devo recomeçar o trabalho a sério amanhã ou Segunda-feira por isso vou tentar aproveitar para descansar, dar uso à internet (se tiver sinal hoje…) e talvez no final do dia me apeteça dar um passeio pelo deserto. Desde que dei de caras com um chacal (ou ele é que deu comigo) em Junho que nunca mais me senti tão seguro para estes passeios de final de tarde que, por vezes, implicam voltar com a primeira luz do luar. As cobras não me preocupam tanto, talvez por nunca ter visto nenhuma, apesar dos já muitos relatos de avistamentos. Tanto quanto sei as cobras de noite dormem…

Os shale-shakers, onde se recolhem as amostras (...ou Hugo na fabrica do chocolate).

Tanque de retenção para a lama oleosa (Oil Base Mud). Gosto particularmente do pormenor da boia colocada ao lado de um candeeiro envasado. Ao fundo, encontram-se os dormitorios.